Sentido, Ética e Liberdade: o que Sísifo pode ensinar a Líderes e Organizações?

Por Léia Wessling

Sísifo, personagem da mitologia grega, era filho do rei Éolo, da Tessália e Enarete. Foi o fundador e primeiro rei de Éfira, que depois passou a ser chamada Corinto, governando-a por muitos anos.Era considerado o mais astuto de todos os mortais.

Mas o que Sísifo tem a ensinar para Lideranças e Organizações?

Sísifo, assim como empresários, executivos e outros diversos líderes comunitários e organizacionais, demonstram inquietude e pioneirismo. Era um dos mais letrados da região. De espírito ambicioso, tinha apetite por desafios e desejo de sucesso. Mestre da malícia, Sísifo foi também considerado um dos maiores ofensores dos deuses — os deuses representam aqui uma ordem superior, ou uma consciência plena (ética individual aplicada em prol do coletivo).

O que causou a ira dos deuses sobre Sísifo?

Sísifo odiava o irmão e buscava vingar-se por suas diferenças. Mentiu e subornou o deus-rio sobre sua jovem filha raptada. Seduziu o deus da morte com um colar de aprisionamento. Enganou o deus do mundo subterrâneo para não assumir as consequências dos próprios atos. Também enganou o mais bem-sucedido ladrão da Grécia.

Qual foi o castigo dos deuses para Sísifo?

Sísifo recebeu o que foi considerado o pior de todos os castigos: viver uma vida sem sentido. Por toda a eternidade, e sem ter consciência do castigo recebido, Sísifo foi condenado a rolar uma grande pedra de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo, até o ponto de partida, invalidando completamente o duro esforço despendido.

Lição 1. Trust (confiança, fé, crença, responsabilidade, esperança, crédito)

No nível organizacional, a cultura é a nova fronteira da vantagem competitiva. Tão importante quanto os conhecimentos, tecnologias, produtos e serviços, é quem você é: sua identidade, finalidade, comportamentos. A quebra de confiança de Sísifo para com os deuses representa aqui a necessidade de evolução das lideranças e das organizações para uma nova consciência individual e coletiva. O eu existe, e somente existe a partir do nós, da sua comunidade, da confiança construída por meio das relações: das pessoas que trabalham na empresa, do cliente/consumidor que escolhe os produtos e serviços e da sociedade.

Projetos, negócios, cidades e comunidades se entrelaçam por meio do Trust. Ampliar essa relação de confiança representa considerar a existência de uma consciência plena, que integra diversos participantes. É sair do eu para construir o nós. Parece utopia? Ou absurdo? Absurdo, para Camus (1913 – 1960), significa justamente ser condenado a uma vida sem sentido.

 

Lição 2. A vida é feita de contradições

Simone de Beauvoir (908 – 1986) ensina a ética da ambiguidade, em que “querer-ser livre e querer-ser moral é uma só e mesma decisão.”

A expressão “trabalho de Sísifo”, em contextos atuais, significa realizar qualquer tarefa que envolva esforços longos, repetitivos e inevitavelmente fadados ao fracasso – algo com um infinito ciclo de esforços que, além de nunca levarem a nada útil ou proveitoso, também são totalmente desprovidos de quaisquer opções de desistência ou recusa em fazê-lo.

As revoluções iniciadas ao longo de toda a história humana, de impactos sociais e econômicos demonstram as contradições existentes entre o sentido e a falta dele. A necessidade humana de criar sentido para a vida faz com que estejamos criando e nos rebelando a todo tempo. Carros, casas e celulares são criações que satisfazem necessidades de locomoção, segurança e comunicação, que trazem sentido e a falta dele, ao mesmo tempo.

A liberdade humana não parece estar tão vinculada à esperança por um futuro melhor, mas à necessidade de prosseguir adicionando objetivos na vida e criando significados. Assim, Sísifo e Líderes gozam de uma liberdade no que se refere às regras comuns. Ferindo essas regras comuns, sua liberdade já não é mais merecida. E é esta a contradição a ser vivida: a razão e seus limites devem ser reconhecidos. Adicionando outro pensamento de Camus: “O que conta não é a melhor vida, mas a maioria dos que a vivem.”

Lição 3. Por uma existência com sentido

Camus apresentou o mito de Sisifo para demonstrar como na vida moderna (e atual), pessoas em diferentes ambientes de produção e trabalho, realizam atividades  fúteis e sem sentido, tendo pouca consciência sobre isso. Não é por acaso que em diversas atividades repetitivas e rotineiras, o índice de rotatividade é tão alto. Também em cargos executivos, a intensidade de experiências estressantes e a dedicação quase exclusiva ao trabalho impactam negativamente na saúde e na felicidade dos profissionais.

Segundo estudo (2018) da International Stress Management Association (ISMA), o Brasil é o segundo país com os profissionais mais estressados do mundo, onde 30% dos 100 milhões de trabalhadores sofrem problemas decorrentes do stress, como a Síndrome de Burnout.

Então, para que organizações sejam saudáveis, pessoas precisam estar saudáveis. Uma lição de Sísifo para as Lideranças é de encontrarem sentido e significado para a existência do negócio e para suas próprias vidas, de maneira ampla, equilibrada e integrada. E aí não vale mais aquela velha retórica “nosso propósito é gerar lucro”. Propósito traz um novo sentido para o sucesso, pois está relacionado à geração de impactos positivos para as pessoas: colaboradores, clientes/consumidores, sociedade e empreendedor – nesta ordem.

Sísifo buscava a felicidade por meio do sacrifício de outros, por isso acabou condenado pelos deuses (a consciência plena). Utilizando o pensando existencialista de Simone de Beauvoir, é através do conhecimento (e do reconhecimento) das condições autênticas da própria vida (individual e organizacional) que devemos extrair a força para viver e as razões para agir. E esta parece ser uma grande lição de Sísifo para líderes e organizações.

 Lição 4. “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria”, Camus

Diante da falta de sentido com que muitas vezes os seres humanos se deparam, o escritor Camus questiona como devemos reagir diante dessa inutilidade da vida. Assim como para Sartre (1905 – 1980), ele afirma que muitas vezes não paramos para pensar nisso porque simplesmente a vida é muito corrida. Outra filósofa que inspirou esses mesmos questionamentos foi Sarah Bakewell: “Mas de vez em quando ocorre um deslize e surge a questão da finalidade. Nesses momentos, sentimos um cansaço tingido de espanto ao enfrentarmos a pergunta mais básica de todas: por que continuamos a viver?”.

A vida costuma ser vivida como em uma “prosa”, repleta de compromissos e atividades concretas que nos trazem obrigações e atos de sobrevivência, muitas vezes sem sentido, mas necessários. A vida vivida apenas em prosa tornou-se o castigo de Sísifo. Uma saída para isso é a vida vivida também em “poesia”, este outro polo que faz pessoas e organizações se distinguirem, que contagia as relações, que engaja, que inspira, que traz o belo e o gosto por aquilo que se faz, traz sentido para a vida.

Temos aqui uma conclusão?

Devo concordar com Sartre (1945), que afirma não existir apenas um caminho a ser traçado que leve as pessoas (assim como organizações e comunidades) à salvação ou a felicidade, pois é necessário inventarmos incessantemente nosso próprio caminho.

Mas o que é certo afirmar é que todo este movimento contemporâneo de transformações de pessoas e organizações, em direção a uma existência com sentido, reside na liberdade e na responsabilidade autêntica.

Todas as esperanças realmente residem dentro de nós, Sartre.

 

Léia Wessling é psicóloga, empresária, consultora e diretora da Light Source. É autora do livro Mindset – Liderança Estratégica