Felicidade tem efeito dominó na saúde mental e ganha espaço em empresas

“Se as companhias focam mais em felicidade, elas podem não só ter funcionários mais felizes como também mais produtivos”, é o que afirma Laurie Santos,  pesquisadora da área de psicologia na Universidade de Yale em uma reportagem publicada no final de maio no jornal O Estado de São Paulo.  De acordo com a pesquisadora, funcionários mais felizes são pessoas mais saudáveis e, assim, mais produtivas.  Reproduzimos abaixo os principais trechos da matéria, que pode ser lida na íntegra neste link (para assinantes).

Felicidade tem efeito dominó na saúde mental e ganha espaço em empresas

Bem-estar dos profissionais alcança centro do debate na pandemia; empresas como Ambev aderem a gestor de felicidade, e UnB tem disciplina sobre o tema desde 2018; veja 14 dicas para ter saúde mental

Em 2017, o Brasil já ocupava o primeiro lugar de prevalência de transtornos de ansiedade nas Américas, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS). Durante a pandemia, ficou evidente: o assunto felicidade no trabalho é urgente e sério. De acordo com pesquisa do Instituto Ipsos, encomendada pelo Fórum Econômico Mundial, 53% dos brasileiros declararam que sua saúde mental piorou um pouco ou muito no último ano, na vida sob a pandemia do coronavírus.

Já a American Psychological Association (APA) publicou relatório com tendências emergentes na área de psicologia para 2021 e, entre as “top 10”, destaca-se o tópico “employers are increasing support for mental health” (empregadores estão aumentando apoio para saúde mental). Ele revela que grandes empresas ofertam recursos e cuidados à medida que reconhecem a pressão que a pandemia exerce sobre seus colaboradores.

É o caso da Ambev. Durante a pandemia, a regional Nordeste da companhia criou o cargo de especialista happiness & learning, que hoje é ocupado por Ellen Luna. Após um processo de  esgotamento psicológico durante o auge na carreira do mercado financeiro, Ellen decidiu buscar um outro caminho para sua vida profissional. Realizou especializações em psicologia e gestão de pessoas e após a contratação, há três meses, na Ambev, certificou-se como Chief Happiness Officer (CHO) pelo Instituto Feliciência.

“O Chief Happiness Officer (CHO) ou Gestor Executivo da Felicidade, é o responsável por catalisar as iniciativas de felicidade na organização. Atua em âmbito estratégico, apoiando a disseminação do propósito corporativo, o desenvolvimento de uma cultura organizacional saudável e a sedimentação de um modelo de liderança positiva”, destaca Carla Furtado, diretora executiva do Instituto Feliciência.

Cabe ao CHO também capitanear o processo de diagnóstico do bem-estar e o planejamento do plano de ação de melhoria das condições para a felicidade, destaca Carla. E por onde começar? Renata Rivetti, fundadora e diretora da Reconnect, diz que é preciso inicialmente educar a corporação sobre o que é felicidade corporativa e começar a desmistificar o conceito dentro da empresa.

O melhor de dois mundos

Um CEO que também é CHO: o cargo C-level mais elevado de uma empresa (o de presidente) acumulando a função de ser guardião e embaixador da felicidade na companhia. “Quando a alta liderança acredita no tema e o promove na empresa, vai fazer o tema acontecer. E quando o líder é alguém que acredita, é muito mais fácil mudar a cultura”, destaca Renata Rivetti, da Reconnect.

Na The Bridge, empresa de alocação de profissionais da área de tecnologia no mercado de trabalho internacional, o CEO, também conhecido como CHO, é Bernardo Carvalho. Após 15 anos no mercado publicitário, ele se aventurou em busca de um novo propósito: trazer felicidade para a vida de outros profissionais.

“O cargo de Chief Happiness Officer nasce como uma missão, além de ser um dos objetivos da empresa, de fazer os clientes felizes, os candidatos felizes e a equipe interna também”, diz. “Eu ser também o CEO da empresa significa um olhar 360°, de como posso gerar felicidade, valor e resultados.” Para Bernardo, a falta de liderança, de uma cultura organizacional sustentável ou da definição de plano de carreira são alguns dos fatores de maior insatisfação no trabalho.

A felicidade trabalhada na faculdade

“Qual é o seu nome? O que te faz feliz?”. Estas são as duas primeiras perguntas da disciplina de Felicidade na Universidade de Brasília (UnB) que o professor Wander Pereira faz para seus alunos. A matéria, que não tem como objetivo ensinar a ser feliz, mas apresentar práticas para exercitar esse sentimento é, para alguns alunos, o ponto de partida para a determinação de um caminho para a vida profissional guiado pela felicidade.

A disciplina, criada em 2018 com foco em estudantes de engenharia, e que hoje tem alunos de diversos cursos, serve para muitos como válvula de escape e acaba contribuindo para a melhora do desempenho em outras matérias. Criticada por outros docentes, a disciplina quebra o paradigma de que para ser um bom profissional é preciso sofrer, é preciso ser duro para resistir ao trabalho.

“Ensino que ninguém pode ser responsável pela sua felicidade a não ser você mesmo, mas é uma responsabilidade das empresas criarem condições para que as pessoas se realizem e sejam felizes no ambiente de trabalho”, destaca o professor. As empresas devem ter como prioridade a saúde mental dos seus colaboradores, bem antes da lucratividade.

Como alcançar a sustentabilidade emocional

A construção de uma cultura saudável, que contemple o bem-estar humano como valor inegociável, aliada a um modelo de liderança que privilegie o cuidado, é o ponto de partida para alcançar a sustentabilidade emocional. Segundo Carla Furtado, do Instituto Feliciência, além disso, é preciso reduzir a velocidade, o excesso de trabalho e de conexão no sentido de garantir a sustentabilidade. Abaixo, veja 14 orientações de especialistas para empresas e colaboradores.

Para as empresas:

  1. Felicidade como valor: gerar significado para as ações, trazer a felicidade para a estrutura da empresa, para os valores.
  2. Estímulo do reconhecimento: trabalhar a gratidão entre os colaboradores. Um exemplo é começar as reuniões perguntando se alguém tem algo para agradecer.
  3. Criação de laços: focar na proximidade entre as pessoas.
  4. Flexibilidade e autonomia: criar relações de confiança com o colaborador sobre o seu próprio gerenciamento de tempo e entregas.
  5. Entender quem são os colaboradores: perceber quais são as atividades que geram maior felicidade nos colaboradores e buscar desenvolvê-las.
  6. Criação de um ambiente sustentável: espaço para críticas, ideias, contribuições dos colaboradores, para eles se expressarem.
  7. Organização da comunicação: poupar o tempo da equipe, definir quais reuniões são realmente importantes. Definir um canal de comunicação que não seja o mesmo do pessoal, enviar uma quantidade menor de e-mails.
  8. Valorização da desconexão digital: empresas devem estabelecer políticas de desconexão digital, respeitando o espaço de descanso dos colaboradores. A recomendação é de pelo menos 12 horas de desconexão sequenciais. Na França o tema já é lei.
  9. Iniciativas de descompressão: criação de espaços e pausas na agenda corporativa como a determinação de faixas de horários para a não realização de reuniões online ou uma semana de descanso para todos do escritório.

Para colaboradores:

  1. Deixe as coisas fluírem e permita sentir: aproveite para implementar mudanças pequenas e duradouras e exercitar o novo. Não se cobre grandes transformações. Experimente coisas novas.
  2. Mantenha-se saudável: como consequência terá a produtividade, mas não foque só nesta última.
  3. Momentos de descanso entre uma reunião e outra: tomar sol, andar pela casa, buscar trocar de ambiente. Realizar intervalos se o trabalho for presencial. Apagar o espelho da câmera em reuniões online e também a câmera pode contribuir para diminuir o cansaço.
  4. Redes sociais: estabelecer horários e momentos para utilização.
  5. Método RAIN: reconhecer as emoções negativas, permitir senti-las, investigá-las e  cuidar de si mesmo depois.
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