Profissões do futuro, novas habilidades e Cultura Organizacional: sua empresa está preparada?

Leitura 4 minutos

Por Léia Wessling

O Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, na Suíça, tem sido uma oportunidade de reflexão em torno do futuro. Apesar do nome estar marcado pelas motivações econômicas, trata-se de uma pauta que não se sustenta sem as discussões acerca das relações internacionais, do uso responsável de recursos naturais e do comportamento humano e social. Nesta direção, cultura se apresenta como um tema de relevância para que organizações estejam preparadas para o futuro.

 

Um dos relatórios gerados no encontro de 2019 indicou 10 habilidades requeridas das pessoas para o futuro do trabalho: flexibilidade cognitiva, negociação, orientação a serviços, julgamento e tomada de decisão, inteligência emocional, coordenação com os outros, gestão de pessoas, criatividade, pensamento crítico e, por fim, resolução de problemas complexos.

 

Na edição 2020, o relatório Jobs of Tomorrow: Mapping Opportunity in the New Economy, divulgado pela Revista Exame em 23 de janeiro de 2020, agrupou 96 profissões do futuro em sete categorias: Saúde; Dados e Inteligência Artificial; Engenharia e Computação em Nuvem; Economia Verde; Pessoas e Cultura; Desenvolvimento de Produtos e Vendas, Marketing e Conteúdo.

Analisando de maneira integrada esses dois relatórios, observa-se que o desenvolvimento econômico passa pela criação de riqueza e valor em três ativos-chave:

 

  • Ativo digital, uma realidade que pressupõe a capacidade de navegar e criar produtos, serviços e conexões sociais e econômicas por meio da tecnologia;
  • Ativo verde, uma urgência que reconhece os limites e oportunidades dos recursos e ambientes no curto, médio e longo prazos para planejar um agir local com impacto global;
  • Ativo cultural, uma condição para que pessoas produzam inovação nos modelos econômicos, sociais e de trabalho por meio de seus comportamentos, capacidades e diversidades.

Modelos de gestão para uma nova realidade

Mas como as organizações, sejam elas públicas, privadas ou do terceiro setor, podem criar uma realidade cultural mais próxima do futuro? Em que medida as organizações estão estruturando suas estratégias e suas iniciativas para a oferta de produtos e serviços sustentados por uma nova realidade?

Em diversas organizações, dos mais variados setores da economia, nos deparamos com modelos de gestão fechados e pouco alinhados a essa nova realidade.

Observamos a necessidade urgente de expansão e flexibilização dos modelos empresariais para uma cultura mais aberta e orientada ao futuro. A partir dessas experiências, reconhecemos cinco iniciativas que podem impulsionar a transformação de sua empresa.

5 iniciativas para impulsionar a transformação

1) Reconheça a cultura presente em sua organização: quais os valores positivos e duráveis? Quais as entropias que limitam a evolução? Qual o significado e impacto dos rituais, imagens e aspectos físicos da empresa na cultura e nos resultados? Como a empresa tem utilizado e atualizado os ativos digitais, ambientais e humanos? Em que medida os produtos, serviços, processos e atividades estão levando ao futuro ou em que medida prendem as pessoas, equipes e empresa ao passado?

 

2) Construa uma promessa inspiradora e multidimensional, levando em consideração não apenas o resultado final em termos de crescimento ou de visibilidade para a própria organização, mas as diversas dimensões para o futuro: que diferença a empresa quer fazer para o cliente e a sociedade? Que valores e comportamentos conduzirão as pessoas para o futuro mais promissor? Quais os compromissos assumidos por toda a organização que impactam na geração de valor?

 

3) Compartilhe informações, desenvolva parcerias e interaja abertamente com públicos diversos na produção de ideias, conhecimentos e projetos. Considere como parceiros os funcionários, seus familiares, a comunidade, os clientes, as universidades e institutos de pesquisa, os centros culturais e sociais e a sociedade em geral. Neste processo você poderá desenvolver produtos e serviços em parceria, adicionar a inteligência artificial em processos e projetos, estar próximo da economia verde e das inovações em saúde, independente do setor onde sua empresa está inserida.

 

4) Desenvolva especialmente o mindset da liderança que está conduzindo a estratégia da empresa, pois é esse grupo que tem condições de estimular, preparar e desafiar as pessoas a utilizarem seus talentos e as habilidades requeridas para o futuro: a liderança está aberta e estimula as pessoas a questionarem? Conhecimentos são compartilhados entre as lideranças e com os diversos públicos? Como as emoções são gerenciadas? Como os erros são tratados? Quais os fóruns de estímulo ao pensamento critico? As pessoas são chamadas a contribuírem para a solução de problemas complexos?

 

5) Ofereça novas experiências de trabalho, seja no processo formal de remanejamento de pessoas em atividades que podem expandir a contribuição e treinar novas habilidades, ou em projetos e eventos internos e externos que incentivem o desenvolvimento de habilidades humanas, culturais e sociais. Podem favorecer novas experiências os projetos sociais e comunitários, aulas de teatro, cinema e música, interação com inteligência artificial, participação em fóruns de debates, produção de conteúdo e opinião em temas de interesse, eventos sociais e de integração, visitas a lugares aparentemente desconectados com os produtos e serviços, viagens e contato com os clientes. As sete categorias que indicam o futuro do trabalho são temas de alta relevância para promover novas experiências.

Preparar a organização para competir neste novo cenário é desafiar-se a ser seu próprio competidor, pois as novas habilidades e profissões requeridas para o futuro já não serão mais de propriedade das empresas, mas de pessoas, instituições e comunidades vinculadas aos mesmos objetivos. Empresas já não estarão mais sozinhas e produzindo algo isolado e exclusivo. Pelo contrário, a conexão pressupõe compartilhamento. Então, desenvolver uma cultura organizacional com um modelo de gestão aberto é o desafio-chave das organizações que querem participar do futuro.

 

Léia Wessling é psicóloga, empresária e diretora da Light Source. É autora do livro MINDSET: Liderança Estratégica